Dimensionamento de sumidouro: fórmulas, ensaio e exemplo
Dimensionamento de sumidouro pela NBR 17076:2024: ensaio de percolação, fórmulas de área lateral e de fundo e exemplo resolvido. Veja o passo a passo.
Salatiel D. Kerne
O dimensionamento de sumidouro consiste em calcular a área de infiltração que o solo precisa oferecer para absorver, todos os dias, o efluente que sai do tanque séptico (e do filtro anaeróbio, quando existe). Na prática, você divide a contribuição diária de esgoto pela taxa máxima de aplicação do solo, obtida no ensaio de percolação, e depois escolhe diâmetro e altura útil que entreguem essa área. É uma conta simples, mas que depende de um ensaio bem feito e das fórmulas certas.
Neste artigo você vai ver o que é o sumidouro segundo a NBR 17076:2024, como fazer o teste de infiltração, as fórmulas de área lateral e de fundo e um exemplo resolvido completo, com todas as contas conferidas.
- Fórmula base: Ainf = C / Tx (área em m², contribuição em m³/dia, taxa em m³/m²·dia).
- Área do fundo = π·D²/4; área lateral = π·D·H (H = altura útil abaixo do tubo de entrada).
- A taxa Tx sai do ensaio de percolação (mínimo de 3 pontos) e da tabela da NBR 17076.
- Fundo do sumidouro a no mínimo 1,50 m do nível máximo do lençol freático.
- Exemplo: 6 pessoas, 150 L/hab·dia, Tx = 0,1 → 9,0 m² → D = 1,20 m e H ≈ 2,10 m.
O que é um sumidouro?
Pela NBR 17076:2024, o sumidouro, também chamado de poço absorvente, é um poço escavado para a disposição final do esgoto já tratado em nível subsuperficial. Ele usa o próprio solo como meio filtrante: o efluente atravessa as paredes e o fundo permeáveis e termina a depuração enquanto percola.
A diferença para a vala de infiltração está na geometria. O sumidouro é vertical e ocupa pouca área em planta; a vala é horizontal, rasa e comprida. Por isso o sumidouro é a escolha natural em terrenos pequenos, desde que o lençol freático seja profundo.
A condição que mais elimina o sumidouro em campo é justamente essa: a distância mínima de 1,50 m entre o fundo do sumidouro e o nível máximo do aquífero. Em regiões de várzea e de lençol raso, isso derruba a solução no período de cheia, e a vala (mais rasa) passa a ser a alternativa.
Modelo 3D de sumidouro circular.
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De onde vem o efluente que chega ao sumidouro?
O sumidouro nunca recebe esgoto bruto. Ele é a última etapa de um conjunto: o tanque séptico retém sólidos, lodo e escuma; o filtro anaeróbio reduz a carga orgânica dissolvida; só então o efluente clarificado segue para o solo.
Isso importa para o dimensionamento porque a vazão que entra no sumidouro é, na prática, a mesma contribuição diária que você usou no tanque séptico. Se o tanque for subdimensionado, sólidos escapam e colmatam o solo em pouco tempo, e nenhum cálculo de área resolve.
Como fazer o teste de infiltração (ensaio de percolação)?
A taxa de aplicação que entra na fórmula não é chutada: ela vem do ensaio de percolação descrito na NBR 17076. O roteiro é este:
- Pontos de ensaio: faça no mínimo 3 cavas em pontos representativos da área onde o sumidouro será construído.
- Escavação: abra cada cava com trado de 150 mm até a cota prevista para o fundo do sumidouro, sempre conferindo os 1,50 m até o nível máximo do lençol.
- Preparo: limpe o fundo, retire o material solto e coloque cerca de 0,05 m de brita.
- Saturação: encha com 0,30 m de água e mantenha o nível por no mínimo 4 horas. Em solo argiloso, a saturação pode exigir 12 horas ou mais.
- Medições: ajuste a lâmina para 0,15 m, meça o rebaixamento a cada 30 minutos e recomponha o nível após cada leitura. Continue até que a diferença entre leituras sucessivas fique abaixo de 0,015 m.
- Solo arenoso: se a água infiltra em menos de 30 minutos, faça leituras a cada 10 minutos durante 1 hora.
- Taxa de percolação: divida o intervalo de tempo pelo rebaixamento da última leitura.
- Resultado da área: tire a média aritmética dos pontos e converta em taxa de aplicação pela tabela da norma.
Cálculo correto da taxa de percolação
Aqui está um erro comum (que estava, inclusive, na versão anterior deste artigo): a taxa de percolação não é “volume infiltrado dividido pelo tempo”. Ela é tempo dividido pelo rebaixamento, ou seja, quantos minutos o solo leva para baixar uma unidade de altura de água.
Exemplo: na última leitura, em 30 minutos, a água baixou 0,03 m. Então:
Taxa de percolação = 30 min ÷ 0,03 m = 1.000 min/m (equivale a 10 min/cm).
Quanto maior esse número, mais lento é o solo. Antes de entrar na tabela, confira em qual unidade ela está expressa na sua cópia da NBR 17076 e converta se necessário.
Solos heterogêneos: média ponderada por camada
Quando a sondagem mostra camadas diferentes ao longo da profundidade, a cava deve ir até o fundo do futuro sumidouro e a taxa é medida camada a camada. A taxa representativa é a média ponderada pela espessura:
K média = Σ(Ki × Hi) / ΣHi
- Ki: taxa de percolação da camada i, em min/m;
- Hi: espessura (altura) da camada i, em m.
Exemplo rápido: 1,0 m de solo com 600 min/m sobre 1,5 m com 1.200 min/m dá (1,0 × 600 + 1,5 × 1.200) / 2,5 = (600 + 1.800) / 2,5 = 960 min/m.
Da taxa de percolação à taxa de aplicação diária
A taxa de percolação (tempo por altura) é convertida em taxa máxima de aplicação diária (m³/m²·dia) pela tabela da norma. É esse segundo valor, Tx, que entra no dimensionamento.

NBR 17076:2024 – tabela N.1.
Como dimensionar o sumidouro: fórmulas
A equação de dimensionamento do sumidouro é:
Ainf = C / Tx
- Ainf: área de infiltração necessária, somando a área lateral e o fundo abaixo do tubo de distribuição (m²);
- C: contribuição diária que vem do tanque séptico (m³/dia);
- Tx: taxa máxima de aplicação diária do solo (m³/m²·dia).
Para um sumidouro circular de diâmetro D e altura útil H, a área disponível é a soma de duas parcelas:

| Parcela | Fórmula | O que representa |
|---|---|---|
| Área lateral | π · D · H | Perímetro do poço vezes a altura útil abaixo do tubo de entrada |
| Área do fundo | π · D² / 4 | Área do círculo da base |
| Área total | π·D²/4 + π·D·H | Deve ser maior ou igual a Ainf |

Área lateral: π·D·H.

Área do fundo: π·D²/4.
Atenção: na versão anterior deste artigo as duas fórmulas apareciam trocadas. A correta é a da tabela acima. Isolando H, fica:
H = (Ainf − π·D²/4) / (π·D)
A altura útil H é medida da geratriz inferior do tubo de entrada até o fundo. A profundidade total escavada é maior: soma-se a camada acima do tubo, a laje de cobertura e o recobrimento.
Exemplo resolvido de dimensionamento de sumidouro
Dados: residência com 6 pessoas, contribuição de 150 L/hab·dia e taxa máxima de aplicação Tx = 0,1 m³/m²·dia (valor adotado para o exemplo; no seu projeto, ele vem do ensaio e da tabela).
Passo 1 – Contribuição diária
C = 6 × 150 = 900 L/dia = 0,9 m³/dia.
Passo 2 – Área de infiltração
Ainf = 0,9 / 0,1 = 9,0 m².
Passo 3 – Escolha do diâmetro e cálculo da altura útil
Adotando D = 1,20 m:
- Área do fundo = π × 1,20² / 4 = π × 1,44 / 4 = 1,131 m²;
- Perímetro = π × 1,20 = 3,770 m;
- 9,0 = 1,131 + 3,770 × H → 3,770 × H = 7,869 → H = 2,087 m.
Arredondando para cima: H = 2,10 m. Conferência: 1,131 + 3,770 × 2,10 = 1,131 + 7,917 = 9,048 m² ≥ 9,0 m². OK.
A versão anterior deste artigo chegava a H = 1,68 m por um erro de conta. Esse valor deixaria o sumidouro com cerca de 7,5 m² de área, quase 17% abaixo do necessário.
Passo 4 – Alternância e profundidade
Com a alternância de uso, o projeto passa a ter dois sumidouros, cada um com 100% da área (9,0 m² cada, D = 1,20 m e H = 2,10 m). Um opera enquanto o outro descansa. O funcionamento está explicado no detalhamento de alternância de sumidouro.
Outro ponto é a profundidade. Como recomendação do autor, mantenha a profundidade útil em até 3,5 m: acima disso a escavação fica cara, arriscada e se aproxima do lençol. Se a conta der H maior, aumente o diâmetro ou divida a área em mais unidades.
Tabela de alternativas para o mesmo exemplo
| D (m) | Área do fundo (m²) | Perímetro (m) | H calculado (m) | H adotado (m) |
|---|---|---|---|---|
| 1,00 | 0,785 | 3,142 | 2,615 | 2,65 |
| 1,20 | 1,131 | 3,770 | 2,087 | 2,10 |
| 1,50 | 1,767 | 4,712 | 1,535 | 1,55 |
Repare como pequenas variações de diâmetro mudam bastante a altura. Escolha o par D/H que combine com o anel pré-moldado disponível na região e com a cota do lençol.

Exemplo de projeto de sumidouro.
Cuidados de projeto e execução do sumidouro
- Distância do lençol: mínimo de 1,50 m entre o fundo e o nível máximo do aquífero, considerando a época de cheia.
- Afastamentos: respeite as distâncias da NBR 17076 em relação a poços de captação, construções e divisas.
- Paredes permeáveis: anéis de concreto perfurados ou alvenaria com juntas livres; fundo com brita.
- Solo não compactado: evite pisotear e compactar o fundo durante a obra.
- Águas pluviais: não direcione chuva para a área do sumidouro.
- Inspeção: preveja tampa de inspeção acessível.
Os detalhes construtivos estão no detalhamento de sumidouro circular, e as regras gerais da norma, no artigo sobre a NBR 17076.
Material extra: anexo da norma e vídeo
Baixe o resumo do anexo de sumidouro: ANEXO K – SUMIDOURO.
No vídeo abaixo eu mostro o dimensionamento do sumidouro passo a passo:
Perguntas frequentes sobre dimensionamento de sumidouro
Qual a fórmula para dimensionar um sumidouro?
A fórmula é Ainf = C / Tx, em que C é a contribuição diária de esgoto em m³/dia e Tx é a taxa máxima de aplicação do solo em m³/m²·dia. Para um sumidouro circular, a área disponível é π·D²/4 (fundo) mais π·D·H (lateral). Você fixa o diâmetro e isola a altura útil: H = (Ainf − π·D²/4) / (π·D).
Como calcular a taxa de percolação do solo?
Divida o intervalo de tempo da última leitura pelo rebaixamento medido. Se a água baixou 0,03 m em 30 minutos, a taxa é 30 ÷ 0,03 = 1.000 min/m. Faça o ensaio em pelo menos 3 pontos, tire a média e converta o resultado em taxa de aplicação diária usando a tabela da NBR 17076.
Qual a distância mínima entre o sumidouro e o lençol freático?
O fundo do sumidouro deve ficar a no mínimo 1,50 m do nível máximo do aquífero. Considere o nível na época de chuvas, não o da sondagem feita na seca. Se essa folga não existir, o sumidouro não é adequado e a alternativa costuma ser a vala de infiltração, mais rasa, ou outra solução prevista na norma.
Preciso fazer dois sumidouros?
Sim, quando se adota a alternância de uso, que é a boa prática para garantir vida útil. Cada sumidouro é dimensionado para 100% da área calculada. Enquanto um recebe o efluente, o outro descansa e o solo recupera a capacidade de infiltração. A troca é feita por caixa de passagem ou registro de desvio.
A altura do sumidouro é a profundidade da escavação?
Não. A altura útil H usada no cálculo é medida do tubo de entrada até o fundo, porque só essa faixa recebe efluente. A escavação total soma ainda a altura acima do tubo, a laje de cobertura e o aterro. Como recomendação prática, mantenha a profundidade útil em até cerca de 3,5 m.
Conclusão
Dimensionar um sumidouro é fazer bem três coisas: um ensaio de percolação confiável, a conta Ainf = C / Tx e a geometria correta (fundo π·D²/4, lateral π·D·H). Com a alternância e a folga até o lençol, o sistema funciona por muitos anos sem afloramento nem odor.
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