A NBR 10844 é a norma da ABNT que fixa as exigências para o projeto das instalações prediais de águas pluviais: calhas, condutores verticais, condutores horizontais, ralos e caixas de areia. Publicada em 1989 e ainda vigente, ela trata da água da chuva que cai sobre coberturas, terraços e áreas do lote, desde a captação até o ponto de lançamento. Ela não trata de sarjetas, bocas de lobo e galerias urbanas, que pertencem à drenagem pública.
Neste guia você vai entender o que a norma cobre, quais são os componentes do sistema, como cada um é dimensionado e o que um projeto de drenagem pluvial predial precisa apresentar para ser executado sem improviso na obra.
- A NBR 10844:1989 é a norma de águas pluviais prediais (coberturas, calhas, condutores e caixas), não de drenagem urbana.
- Vazão de projeto: Q = I × A / 60, com I em mm/h, A em m² e Q em L/min.
- Calhas de beiral e platibanda e condutores horizontais: declividade uniforme mínima de 0,5%.
- Condutor vertical: diâmetro interno mínimo de 70 mm, dimensionado pelos ábacos da norma.
- Caixa de areia retém sedimentos por decantação e serve de inspeção; ela não é filtro.
O que é a NBR 10844 e qual o seu escopo?
A NBR 10844 (Instalações prediais de águas pluviais) define os critérios de projeto para que a água da chuva seja coletada e conduzida para fora da edificação com segurança, higiene, durabilidade e economia. O foco é o edifício e o seu lote: telhados, lajes, terraços, marquises, pátios e áreas pavimentadas internas.
Um erro comum, inclusive em versões anteriores deste artigo, é atribuir à NBR 10844 o projeto de canais, sarjetas, bocas de lobo e galerias. Esses elementos fazem parte da drenagem urbana e seguem cadernos técnicos das prefeituras e literatura de hidrologia urbana. A norma predial termina no ponto em que a água é lançada na via pública ou na rede pluvial do município.
Outro ponto importante: a norma exige que a instalação de águas pluviais seja exclusiva. Água de chuva não deve ser ligada à rede de esgoto sanitário, e esgoto não deve ser lançado na rede pluvial. Essa separação evita sobrecarga das redes de esgoto e contaminação dos corpos d’água.
Quais são os componentes de um sistema de drenagem pluvial predial?
Um sistema de drenagem pluvial predial é formado basicamente por quatro elementos, que trabalham em sequência:
- Calha: canal que recebe a água da cobertura e a leva até os pontos de descida.
- Condutor vertical (tubo de queda): tubulação que leva a água da calha ou do ralo até a parte inferior da edificação.
- Condutor horizontal: tubulação, aparente ou enterrada, que conduz a água até o lançamento final.
- Caixa de areia: caixa de inspeção que retém areia e detritos por decantação e permite a limpeza da rede.

Componentes do sistema de águas pluviais. Fonte: autor.
Materiais admitidos pela norma
A NBR 10844 lista os materiais admitidos para cada componente. Cuidado para não trocar as listas, pois condutor vertical e condutor horizontal têm exigências diferentes:
| Componente | Materiais usuais |
|---|---|
| Calhas | Chapa de aço galvanizado, folha de flandres, chapa de cobre, aço inoxidável, alumínio, fibrocimento, PVC rígido, fibra de vidro, concreto ou alvenaria |
| Condutores verticais | Ferro fundido, fibrocimento, PVC rígido, aço galvanizado, cobre, chapas de aço galvanizado, folha de flandres, chapa de cobre, aço inoxidável, alumínio ou fibra de vidro |
| Condutores horizontais | Ferro fundido, fibrocimento, PVC rígido, aço galvanizado, cerâmica vidrada, concreto, cobre, canais de concreto ou alvenaria |
Na prática, o PVC rígido domina os condutores de residências e prédios, enquanto calhas de grandes coberturas costumam ser em chapa galvanizada dobrada sob medida.
Calha: como a NBR 10844 orienta o dimensionamento
A calha coleta a água que escorre do telhado. Ela pode ser de beiral (pendurada na borda do telhado), de platibanda (escondida atrás da mureta) ou de água-furtada (no encontro de duas águas). Nas calhas junto a paredes e platibandas, o rufo é indispensável para impedir que a água escorra por trás da calha.
Fonte: coppidesentupidora.com.br
Fonte: metalmacestruturas.com.br
Roteiro de dimensionamento da calha
- Intensidade pluviométrica (I): escolhida pelo período de retorno e pela localidade, na tabela da norma.
- Área de contribuição (A): a norma considera a inclinação do telhado e as paredes que interceptam a chuva, e não só a projeção horizontal.
- Vazão de projeto: Q = I × A / 60, com I em mm/h, A em m² e Q em L/min.
- Material e rugosidade: definem o coeficiente de Manning (n).
- Seção e declividade: a calha de beiral ou platibanda deve ter declividade uniforme mínima de 0,5%.
Fórmula de Manning-Strickler
A capacidade da calha é verificada pela fórmula de Manning-Strickler:
Q = K × (S / n) × Rh^(2/3) × i^(1/2)
- Q: vazão de projeto, em L/min;
- K = 60.000 (converte m³/s em L/min);
- S: área da seção molhada, em m²;
- n: coeficiente de rugosidade;
- Rh: raio hidráulico (S dividido pelo perímetro molhado), em m;
- i: declividade, em m/m.
Valores de n usuais, conforme a tabela da norma:
| Material | n |
|---|---|
| Plástico, fibrocimento, aço, metais não ferrosos | 0,011 |
| Ferro fundido, concreto alisado, alvenaria revestida | 0,012 |
| Cerâmica, concreto não alisado | 0,013 |
| Alvenaria de tijolos não revestida | 0,015 |
Calha retangular
Para uma calha retangular de base b e lâmina d’água h: S = b × h, perímetro molhado P = b + 2h e Rh = S / P.
Calha semicircular
Para uma calha semicircular de diâmetro D trabalhando cheia: S = π × D² / 8, P = π × D / 2 e Rh = D / 4.
O passo a passo completo, com exemplo numérico e coeficientes de majoração para saídas próximas de mudanças de direção, está no artigo dimensionamento de calha pela NBR 10844. Aqui o objetivo é a visão geral da norma.
Condutores verticais: diâmetro mínimo e uso dos ábacos
O condutor vertical, também chamado de tubo de queda, leva a água da calha até o térreo. Sempre que possível, ele deve ser projetado em uma só prumada. Quando houver desvio, use curvas de 90° de raio longo ou curvas de 45°, e preveja peças de inspeção.
Como dimensionar o condutor vertical
A NBR 10844 dimensiona o condutor vertical por ábacos, um para saída da calha em aresta viva e outro para saída com funil. Os dados de entrada são:
- Q: vazão de projeto, em L/min;
- H: altura da lâmina d’água na calha, em mm;
- L: comprimento do condutor vertical até a primeira curva, em m.
Com esses valores, entra-se no ábaco, lê-se o diâmetro nas interseções e adota-se o maior deles. Em seguida escolhe-se o diâmetro nominal comercial cujo diâmetro interno seja igual ou maior que o encontrado. Os ábacos foram montados com fator de atrito f = 0,04, consideram dois desvios na base do condutor e não incluem fator de segurança.
Independentemente do ábaco, o diâmetro interno mínimo do condutor vertical de seção circular é de 70 mm.
Ábaco para saída da calha em aresta viva.
Ábaco para saída da calha com funil.
Condutores horizontais: declividade e lâmina de projeto
Os condutores horizontais recebem a água dos condutores verticais e dos ralos de piso e a levam até o lançamento. Podem ser aparentes, presos à estrutura, ou enterrados.
Cuidados com condutores enterrados
Tubos enterrados precisam de base resistente e regular. Como prática usual, adota-se recobrimento mínimo de cerca de 30 cm; quando houver tráfego de veículos ou cargas sobre a rede e não for possível aumentar esse recobrimento, a tubulação deve ser protegida com laje, canaleta ou envelopamento. Confira as exigências do fabricante do tubo e do caderno de encargos da obra.
Condutor horizontal enterrado. Fonte: autor.
Como dimensionar o condutor horizontal
O dimensionamento também usa Manning-Strickler, com duas condições da NBR 10844:
- declividade uniforme com valor mínimo de 0,5%;
- escoamento com lâmina de altura igual a 2/3 do diâmetro interno do tubo.
A norma traz uma tabela pronta com a capacidade dos condutores de seção circular por diâmetro, rugosidade e declividade, o que dispensa o cálculo na maioria dos casos.
Tabela da NBR 10844: capacidade de condutores horizontais por material e declividade.
Caixas de areia: quando a NBR 10844 exige
A caixa de areia é uma caixa de inspeção com fundo rebaixado. A água entra, perde velocidade e a areia, a terra e os detritos decantam no fundo, em vez de seguir para a tubulação. Ela não tem camadas de areia ou brita e não funciona como filtro: sua função é reter sedimentos e dar acesso à rede para limpeza e desobstrução.
Nos condutores horizontais enterrados, a norma pede caixa de areia sempre que houver:
- conexão com outra tubulação;
- mudança de declividade;
- mudança de direção;
- trecho retilíneo com mais de 20 m (uma caixa a cada 20 m, no máximo).
A ligação entre condutor vertical e condutor horizontal deve ser feita com curva de raio longo, com inspeção ou caixa de areia, esteja o condutor horizontal aparente ou enterrado.
Caixa de areia em mudança de direção.
Caixa de areia em trecho retilíneo com mais de 20 m.
Qual a medida da caixa de areia?
A NBR 10844 não fixa dimensão mínima. Como recomendação do autor, adote caixas internas de 60 × 60 cm, que permitem limpeza com as mãos e ferramentas e acomodam bem as tubulações de chegada e saída. Preveja limpeza periódica: uma caixa cheia de sedimento deixa de reter e vira ponto de entupimento. Veja o detalhamento da caixa de areia com download do desenho.
Fonte: autor.
O que um projeto de águas pluviais pela NBR 10844 deve apresentar?
Um bom dimensionamento não adianta se o desenho não chega claro à obra. Um projeto executivo de drenagem pluvial predial deve reunir, no mínimo:
- Plantas de todos os pavimentos, com ralos, condutores, caixas, diâmetros e declividades;
- Planta de cobertura, com calhas, sentidos de caimento, pontos de descida e áreas de contribuição;
- Planta de locação/implantação, com a rede enterrada, caixas de areia, cotas e o ponto de lançamento;
- Detalhes: seção das calhas, rufos, saídas, caixas e travessias. Um exemplo é o detalhe de calha em platibanda;
- Memorial descritivo, com materiais e critérios de execução;
- Memorial de cálculo, com intensidade adotada, período de retorno, áreas, vazões e verificação de calhas e condutores.
Se houver aproveitamento da água da chuva, o sistema deve ser compatibilizado com o projeto hidráulico, mantendo a separação da água potável. Para entender a parte de água fria, leia o artigo sobre projeto hidráulico.
Perguntas frequentes sobre a NBR 10844
A NBR 10844 ainda está em vigor?
Sim. A NBR 10844 foi publicada em 1989 e continua sendo a referência da ABNT para instalações prediais de águas pluviais. Apesar de antiga, seus critérios de intensidade pluviométrica, área de contribuição e dimensionamento de calhas e condutores seguem em uso. Antes de cada projeto, vale consultar o catálogo da ABNT para confirmar se não houve revisão ou nova edição.
A NBR 10844 serve para projetar sarjetas e bocas de lobo?
Não. A norma trata de instalações prediais: coberturas, calhas, condutores, ralos e caixas dentro do lote. Sarjetas, bocas de lobo e galerias são elementos de drenagem urbana, projetados com base em critérios de hidrologia urbana e nas normas e cadernos técnicos de cada prefeitura. A norma predial termina no ponto de lançamento na via ou na rede pública.
Qual a declividade mínima de calhas e condutores horizontais?
A NBR 10844 pede declividade uniforme com valor mínimo de 0,5% tanto para calhas de beiral e platibanda quanto para condutores horizontais. Isso equivale a 0,5 cm de desnível por metro. Para calhas de água-furtada, a inclinação acompanha o projeto da cobertura. Declividades maiores aumentam a capacidade e ajudam a autolimpeza.
Qual o diâmetro mínimo do condutor vertical de águas pluviais?
O diâmetro interno mínimo do condutor vertical de seção circular é 70 mm. Na prática, isso leva ao uso de tubos DN 75 em PVC para pequenas áreas. O diâmetro definitivo sai dos ábacos da norma, em função da vazão, da altura da lâmina na calha e do comprimento do condutor até a primeira curva.
Caixa de areia é a mesma coisa que filtro?
Não. A caixa de areia é uma caixa de inspeção com fundo rebaixado onde areia, terra e detritos se depositam por decantação. Ela não tem leito de areia ou brita e não filtra a água. Serve para proteger a rede contra entupimentos e permitir limpeza e inspeção em mudanças de direção, de declividade, conexões e trechos longos.
Posso ligar a água da chuva na rede de esgoto?
Não. A NBR 10844 exige que a instalação de águas pluviais seja exclusiva, sem ligação com o esgoto sanitário. Ligar chuva no esgoto sobrecarrega a rede e a estação de tratamento e pode causar retorno de esgoto nos imóveis. O caminho inverso também é proibido: esgoto não pode ser lançado em rede pluvial.
Conclusão
A NBR 10844 organiza todo o caminho da água da chuva dentro do lote: intensidade e área de contribuição definem a vazão, Manning-Strickler verifica calhas e condutores horizontais, os ábacos definem os tubos de queda e as caixas de areia protegem a rede enterrada. Com esses critérios e uma apresentação completa, o projeto chega à obra sem dúvidas.
Precisa de um projeto de drenagem pluvial ou de instalações hidrossanitárias completo e compatibilizado? Conheça os serviços da MultiPRO Projetos, especializada em projetos de instalações prediais. Use também as calculadoras do Projetista Pleno para conferir seus cálculos.
Ainda não há comentários. Tem uma dúvida ou uma experiência de obra sobre o tema? Comente aqui.