Ir para o conteúdo
ProjetistaPleno
Notícias

Escola de 13 salas em Urucará: R$ 12,53 milhões é caro?

A escola padrão FNDE de 13 salas em Urucará/AM fechou a disputa em cerca de R$ 12,3 milhões. Abrimos a planilha, comparamos com a mesma escola em outros estados e mostramos por que o valor não é caro — e onde ele está apertado.

Salatiel D. Kerne
Publicado em

Perspectiva do projeto padrão FNDE da escola de tempo integral de 13 salas

Nos últimos dias, vi alguns portais de notícia tratarem a licitação da escola de Urucará como se fosse um crime em andamento. Pior: ilustraram as matérias com a foto do prefeito tratada e editada em preto e branco, com cara de cartaz de vilão de novela, à la Avenida Brasil. Antes de qualquer número, a imagem já entrega o veredito ao leitor.

Isso me incomodou. Por trás de uma licitação existem pessoas: gestores públicos, empresários, engenheiros, mestres de obra, pedreiros, e uma cidade inteira esperando uma escola. Desconfiar de obra pública é saudável e necessário; condenar alguém sem abrir a planilha, não. E a pergunta que essas matérias deixaram no ar merece uma resposta técnica: o preço é caro?

Não, não é caro. A escola de tempo integral de Urucará/AM foi orçada em R$ 12.531.940,80 e fechou a disputa em cerca de R$ 12,3 milhões. É a mesma faixa das outras escolas de 13 salas contratadas pelo país em 2026, e a planilha ainda deixa de fora boa parte do custo de construir no interior da Amazônia.

A Prefeitura de Urucará publicou a Concorrência Eletrônica nº 03/2026 para construir uma escola de tempo integral de 13 salas, padrão FNDE, no bairro Paraíso. Como acontece toda vez que aparece uma obra pública de oito dígitos numa cidade do interior, vem junto a pergunta: esse valor está certo?

Trabalho com projetos, orçamentos e documentação para licitação de obras, então resolvi abrir a documentação pública e fazer a conta. Este é o primeiro artigo do blog, e a ideia é simples: mostrar com números, sem achismo, de onde vem o valor e como ele se compara com o resto do Brasil.

A informação é pública

Vi pelo menos três portais dizendo que não existe detalhamento dos custos desta obra. É impressionante como, para atacar a engenharia amazonense, ninguém vai atrás da informação. Falou de dinheiro público, falou de informação pública: o edital, a planilha orçamentária e as composições de custo estão no portal de compras da prefeitura, e a distribuição dos gastos pode ser consultada no Portal da Transparência do Governo Federal e no portal de transparência do município. O projeto também não é segredo: é o projeto padrão do FNDE, o mesmo usado em dezenas de municípios pelo Brasil.

O único ponto que questiono neste artigo é a falta dos projetos executivos regionalizados. Projeto padrão costuma passar por adaptação para a realidade de cada lugar, e esses projetos eu não encontrei no portal da prefeitura. No sistema do governo federal, como já aconteceu em outras obras, só consegui acessar as planilhas-base.

O que está sendo construído

A obra é o projeto padrão do FNDE “Escola 13 Salas – Térreo”, o mesmo modelo que está sendo licitado em dezenas de municípios pelo Brasil. São 13 salas de aula de cerca de 68 m² cada, capacidade para até 910 alunos em dois turnos ou 455 em tempo integral, num terreno de 80 × 85 m.

O pacote publicado pela prefeitura tem três peças principais:

  • Edital da Concorrência Eletrônica nº 03/2026, Processo nº 2242/2026, menor preço global, empreitada por preço global;
  • Memorial descritivo do projeto padrão FNDE;
  • Termo de referência, planilha orçamentária e composições de custo, com BDI de 25% e prazo de execução de 20 meses.

O que não tivemos acesso foi ao conjunto completo de projetos executivos (arquitetura, estrutura, instalações). E isso importa. Quem trabalha no interior do Amazonas sabe que projeto padrão do governo federal quase nunca entra na obra do jeito que saiu de Brasília: ele precisa ser regionalizado para o solo, o clima, os materiais disponíveis e a mão de obra local.

O exemplo mais conhecido foi a insistência, durante anos, em executar escolas e creches padrão em steel frame no interior. Faltava fornecedor, faltava mão de obra treinada, e o resultado foi muita obra parada e muita dor de cabeça. Então, o que dá para analisar com segurança hoje é o que está público: a cotação e o orçamento da obra.

Quanto custou a mesma escola em outros lugares

A mesma escola de 13 salas do FNDE foi contratada em 2026 por valores entre R$ 11,3 e R$ 13,7 milhões. Urucará fechou em cerca de R$ 12,3 milhões, no meio dessa faixa e abaixo de Mâncio Lima, no Acre, o caso mais parecido com o nosso.

Município Valor (R$) Situação Identificação oficial
Mâncio Lima/AC 13.735.512,00 Contratado (fev/2026) Concorrência Pública nº 008/2025 · Contrato 030/2026 · TC FNDE nº 960832/2024
Urucará/AM ≈ 12.300.000,00 Em homologação (estimado no edital: R$ 12.531.940,80) Concorrência Eletrônica nº 03/2026 · Processo 2242/2026
Guaraí/TO 11.874.223,93 Contratado (jun/2026) Contrato 60/2026 · TC FNDE nº 967471/2024
Melgaço/PA 11.638.957,99 Pactuado com o FNDE (mai/2026) Termo de Compromisso nº 993151/2026
Atalaia/AL 11.328.269,50 Homologado (set/2026) Concorrência Eletrônica nº 02/2026

Três observações sobre a tabela:

  • O desconto em Urucará foi de só 1,8%. Sair de R$ 12,53 para cerca de R$ 12,3 milhões mostra que o orçamento não tinha gordura para cortar.
  • Melgaço é o valor que o próprio FNDE pactuou para a obra (R$ 11,64 milhões, com contrapartida municipal). Ou seja, o governo federal reconhece um custo dessa ordem para essa escola no Pará.
  • O caso mais parecido com Urucará, Mâncio Lima/AC, no extremo oeste da Amazônia, ficou em R$ 13,74 milhões, já contratado. Urucará está cerca de 10% abaixo dele.

Guaraí/TO e Atalaia/AL, com acesso rodoviário e fornecedores por perto, ficaram entre R$ 11,3 e R$ 11,9 milhões. Urucará fica de 4% a 9% acima delas, uma diferença menor do que o custo de levar a obra inteira pelo rio, como mostramos mais abaixo.

A conta de padaria: R$ 4,5 mil por m²

Dividindo o valor fechado (cerca de R$ 12,3 milhões) pela área de piso orçada, Urucará sai a cerca de R$ 4.490 por m², um valor normal para entregar uma escola bem acabada no interior da Amazônia.

A dificuldade de fazer essa conta rápida é que os próprios documentos não concordam sobre a área. O memorial do FNDE fala em uma área construída; a planilha, olhando cobertura e piso, aponta outra:

Referência de área Área (m²) Valor fechado por m² (R$)
Piso orçado na planilha 2.740,76 4.488
Cobertura do prédio na planilha 2.471,29 4.977
Área construída do memorial FNDE 1.887,26 6.517

A área do memorial parece subestimada: só os blocos do próprio quadro de áreas somam cerca de 2.620 m². Por isso a referência mais coerente é a de piso, que dá a média de R$ 4,5 mil por m². Esse valor inclui fundação em estacas, estrutura de concreto, cobertura metálica com telha termoacústica, todas as instalações, climatização, SPDA, incêndio, calçadas e urbanização do terreno.

O que muita gente esquece é o quanto a construção encareceu. Em 2020 se construía bem com R$ 2.500 por m². De lá para cá, o INCC (o índice de custo da construção da FGV) acumulou algo perto de 65%: só a inflação leva aqueles R$ 2.500 para cerca de R$ 4.150. Somando o custo de levar tudo para o interior, uma boa construção em 2026 custa entre R$ 4 mil e R$ 5 mil por m².

E tem um detalhe que joga a favor do valor de Urucará: a planilha usa alguns preços do SINAPI de março de 2024. A licitação foi em junho de 2026, mais de dois anos depois. Atualizado só pelo INCC, o mesmo orçamento ficaria perto de R$ 14,4 milhões. Ou seja, os R$ 12,53 milhões já nascem apertados.

Por que obra no interior da Amazônia custa mais — e por que tanta obra para no meio

Construir em Urucará não é construir em Manaus com um frete a mais. A cidade fica à margem do rio Amazonas e quase tudo chega de balsa, no ritmo da cheia e da vazante. A planilha, feita com preços do SINAPI pesquisados em Manaus, não tem um único item para isso:

O que falta na planilha Por que pesa Ordem de grandeza
Frete de balsa Cimento, brita, aço, estrutura metálica, blocos, telhas e esquadrias vêm de fora. Só cimento, brita e aço passam de 2.000 t. 8 a 12 viagens de balsa fretada 20 × 40 m, a cerca de R$ 50 mil cada: R$ 400 a 600 mil
Mobilização e desmobilização de equipamentos A planilha usa trator de esteira, retroescavadeira, miniescavadeira, perfuratriz de estacas, caminhão betoneira, bomba de concreto, guindaste e containers. Nenhum tem item de ida e volta; os containers dizem textualmente “não inclui mobilização/desmobilização”. Ocupa parte das viagens acima, além de transporte e operadores
Concreto feito na obra Cerca de 1.170 m³ de concreto (estacas, blocos, baldrames, pilares, vigas, lajes e pisos) foram orçados como concreto usinado e bombeado. Em Urucará não há usina (em meu conhecimento): a construtora vai ter que levar o material e bater o concreto na obra. Central de concreto, mais mão de obra, perdas e controle tecnológico
Subestação O memorial deixa com a construtora o projeto da subestação em poste, e os disjuntores gerais de 600 A confirmam carga para transformador. A planilha não tem transformador, poste nem ramal de entrada. Nenhum centavo previsto

Só as balsas somam R$ 400 a 600 mil, de 3% a 5% do contrato, sem nenhuma previsão na planilha. Para comparar: o desconto dado na licitação foi de 1,8%.

É por isso que se repete tanto a história: uma empresa de fora ganha a licitação no interior com um preço bonito, começa a obra e não termina. O preço não tinha a logística dentro, e a conta só aparece quando a primeira balsa atrasa.

A Nasser conhece essa realidade muito bem. Trabalhar no interior do Amazonas exige planejamento de suprimentos pelo rio, equipe que conhece a região e experiência para regionalizar projetos padrão que não foram pensados para cá. É esse conhecimento que transforma um orçamento em escola entregue, e não em mais uma obra abandonada.

Possíveis erros na planilha

A conta da planilha fecha, mas alguns itens não conversam com o resto do orçamento, e a maioria pesa contra a construtora, justamente onde os “portais de notícia” atacam. Recalculamos os 632 itens: em todos, quantidade × preço bate com o total, o BDI de 25% está certo e os 24 grupos somam exatamente R$ 12.531.940,80. Mesmo sem os projetos “personalizados para o terreno e região”, dá para conferir os quantitativos pelo padrão FNDE e pela coerência entre os próprios itens:

Item O que a planilha diz Por que chama atenção Quem perde
1.7 Administração local R$ 24.540,59/mês por 20 meses (composição FNDE 52) A única composição de administração anexada (FNDE 392) dá R$ 34.919,18/mês, e já conta só meio engenheiro. A diferença passa de R$ 250 mil com BDI. Construtora
14.2 Fossa, filtro e sumidouros Sistema individual com tanque séptico, filtro anaeróbio e sumidouros, copiado do projeto padrão O projeto não foi regionalizado. No Amazonas, a Lei Pró-Águas faz com que fossa e sumidouro não atendam; a solução de esgoto vai ter que ser refeita, e o que estiver além da planilha não está pago. Construtora e prefeitura
4.6.1 Vergas e contravergas 393,60 m de verga pré-moldada para vãos de até 1,5 m; nenhum item de contraverga O caderno técnico do SINAPI orienta orçar verga e contraverga à parte da alvenaria. A contraverga, obrigatória sob as janelas, não foi orçada, e a escola tem janelas de 2,80 a 7,00 m, acima do vão da composição usada. Construtora
Rasgos e chumbamentos Nenhum item Os cadernos do SINAPI dizem que tubos de água e eletrodutos em parede não incluem rasgo nem chumbamento, que devem ser orçados com composição própria. Todo rasgo em alvenaria da hidráulica e da elétrica fica sem pagamento. Construtora
1.8 a 1.10 Containers 14 meses de locação O prazo da obra é de 20 meses. Construtora
3.6.2 Concreto magro 104,55 m³ de concreto magro nos baldrames O quantitativo não é coerente: é concreto magro demais para os baldrames de uma escola térrea. Prefeitura

Quando dizemos que quem perde é a construtora, não estamos apontando culpados. A maioria desses “erros” não é falha pessoal: num processo do tamanho deste, divergências assim são normais, e é por isso que existem fiscais em várias etapas. Dinheiro público é, sim, muito bem vistoriado, e por excelentes profissionais.

Mas esses “erros” são comuns e, infelizmente, quem arca com eles é a construtora. Se ela pedir aditivo, a maior parte pode ser negada, e provavelmente será, justamente por serem pontos “simples” de enxergar já na fase de licitação. Faço questão de pontuar isso para deixar claro que, mesmo parecendo alto, o valor ainda carrega riscos reais para quem vai executar a obra.

O peso da estrutura metálica parecia o ponto mais estranho: 78.851 kg de treliça para os 2.471 m² do prédio dariam cerca de 32 kg/m², muito para cobertura com telha termoacústica. Olhando melhor, o mesmo item cobre também a quadra coberta (724,81 m² de telhado e 632,70 m² de fechamento lateral). Sobre os cerca de 3.200 m² de cobertura total, a taxa cai para uns 25 kg/m²: ainda alta, mas de forma grosseira podemos dizer que é compatível com os vãos de uma quadra. Sem o projeto estrutural, não dá para cravar.

Ficaram ainda falhas de documentação, comuns em processos de prefeitura e que não mudam o valor:

  • o rodapé da planilha mostra parcelas de custo e BDI que, somadas, dão R$ 12.535.926,12, e não refletem no total;
  • o termo de referência escreve o valor por extenso como “quinhentos e trinta e quatro mil”, e não 531 mil;
  • parte das composições traz o cabeçalho de outro processo (uma creche no bairro Castanhal), mas tudo bem utilizar uma base já validada.

Conclusão

Os cerca de R$ 12,3 milhões da escola de Urucará são coerentes. A planilha fecha, o custo de R$ 4,5 mil por m² é normal para 2026 e a mesma escola foi contratada por valores parecidos em outros estados, chegando a R$ 13,7 milhões no interior do Acre. Se há um risco nesse orçamento, não é o de estar caro: é o de estar apertado, com preços de 2024, administração local abaixo da própria composição e nenhum centavo para balsa, mobilização ou subestação.

Antes de julgar uma obra pública pelo número do edital, vale fazer o que fizemos aqui: abrir os documentos, comparar com obras iguais e lembrar onde ela vai ser construída.

Salatiel — engenheiro civil e arquiteto, gerenciamento e orçamento de obras em Manaus/AM · CREA 041520628-6 · CAU A229032-4

Fontes

Comentários

Ainda não há comentários. Tem uma dúvida ou uma experiência de obra sobre o tema? Comente aqui.

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *. Os comentários passam por moderação antes de aparecer.

Gostou? Receba os próximos por e-mail.

plugins premium WordPress